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quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Natal é muito quisqueí!



Quando a gente está estressado, o melhor que temos a fazer é pedir um tempo. Eu estava nos últimos dos últimos e resolvi tirar uma semana de férias. O lugar escolhido para essa semana foi Natal. Por quê? Talvez porque natal significa nascimento. Um lugar para tentar nascer de novo. Talvez apenas porque o destino mais longo que consegui com os pontos que troquei por passagens aéreas na TAM foi Natal. O certo é que a escolha foi boa. Natal é muito quisqueí.


Cheguei na segunda-feira à tarde e, na busca de um adaptador para a tomada do meu notebook, saí a bater pernas procurando o centro da cidade. Desde a Praia dos Artistas, onde estou hospedado, foram algumas horas de caminhada. Já no primeiro trecho, entrei numa parte nada boa da cidade. Logo na rua acima da praia, uma favela bem favela mesmo, me fez sentir um pouco de medo. Até porque na saída do hotel, o rapaz da recepção berrou (com aquele sotaque potiguar que parece quase uma outra língua), "o seu moço, cuidado com a câmera". Fui abordado por uma prostituta, feia que dói, e me fiz de paisagem e nem olhei para trás.


Caminhando em busca de uma loja de material elétrico, algumas constatações. O bairro Petrópolis é um bairro muito chique. Mulheres bem vestidas entram em boutiques de roupas que parecem caríssimas. Tem BB Estilo e Itaú Personalitée. Muitos policiais nas ruas. São bombeiros pra cá, policiais civis prá lá, polícia turística acolá, ronda escolar à estibordo, patrulha ambiental à bombordo. Vi bastante operário trabalhando nas ruas, algumas construções, mas, muito estranho: pouquíssimos mercados e supermercados, nenhuma loja de material elétrico, hidráulico, ou material de construção. Foram umas duas horas de caminhada até o Centro, com algumas voltas de reconhecimento - eu não estava perdido não, por isso não perguntei nada pra ninguém . As placas me levaram ao Centro. Antes passei por um montão de hospitais. O gente que fica doente!


No Centro, entrei em trocentas lojas, e nenhuma tinha o bendito do adaptador. Comecei a observar nas lojas de equipamentos eletrônicos e elétricos. O novo padrão de tomada não chegou aqui ainda, não. Todos os equipamentos ainda são no padrão dois pinos. Até que entrei numa loja de importados, imagine, importados, e não é que lá tinha o tal do adaptador. Então, para eles, os três pinos ainda é coisa de outro mundo... do Brasil!


Retornei ao hotel e computei as horas de caminhada: três horas e meia. Para o primeiro dia, estava muito bom. Tomei um banho, jantei um escondidinho de camarão no restaurante do hotel - ótimo, por sinal - e fui ao berço.


Na terça-feira a proposta era botar a máquina fotográfica no peito e sair pela praia clicando alguns momentos. Fui em direção à Ponta Negra. Caminhei, caminhei, tirei muitas fotos, caminhei e caminhei. Eu, sinceramente, não imaginava que era tão longe. No mapa que peguei no aeroporto, parecia mais perto. Foram quatorze quilômetros de ida, três horas e meia de caminhada. Peguei muito sol, alguma chuva, bastante vento. Mas valeu à pena. A praia da Ponta Negra é muito legal. Um calçadão acima da areia, no qual desembocam as lojas, restaurantes, hotéis e onde ficam localizados os quiosques que vendem côcos e petiscos é o ponto forte. Aliás, aqui se bebe côco a partir de cinquenta centavos. Claro que, em alguns lugares é dois reais, mas bebi alguns de cinquenta centavos e tinha o mesmo gosto: água de côco. Coqueiro lotado se enxerga em qualquer lugar. Muito bom. Na praia da Ponta Negra, almocei num restaurantezinho que me chamou a atenção pela música que estava tocando: Seu Jorge, contrastando com aquele bando de carrinhos vendendo CDs de muito malgosto, com piadas e músicas de baixo nível - que, aliás é o ponto fraco da praia. Comi um peixe grelhado com salada. Estava gostoso, ainda mais com o salpique de pimenta que eu dei nele.


Depois do almoço, fui até o final da Ponta Negra, o Morro do Careca, e comecei a jornada de volta. Confesso que eu estava tão cansado, com os pés doendo tanto que pensei em voltar de ônibus, mas, o espírito macho e aventureiro falou mais alto. Como eu tinha ido pela estrada - a via costeira - resolvi voltar pela beira da praia. Mais cerca de quatorze quilômetros me esperavam. A beira da praia era muito irregular. Em alguns lugares, rochas impediam a passagem. Era necessário subir as dunas e regressar às margens mais adiante. Eu estava controlando para manter meus tênis mais ou menos enxutos, porque quatorze quilômetros descalço ninguém aguenta. Passados uns dez quilômetros de caminhada, me encontrei num brete. Na beira da praia, um hotel avançava até quase dentro do mar. Não tinha como subir pelas dunas. O jeito era tentar passar quando a onda voltasse. Fiquei chuleando um momento e tentei passar correndo, mas não deu. A onda me atacou e encharcou meus tênis. Não tive outra opção. Tirei os tênis e segui o restante do trecho descalço. Como parei menos vezes para fotografar e o trajeto era um pouco mais curto que pela via costeira, levei apenas três horas para voltar. No total do dia, quase vinte e oito quilômetros, seis horas e meia de caminhada. Cheguei ao hotel exausto, doído, com a planta dos pés, as coxas e as verilhas assadas. Tive que ligar pra farmácia trazer um creme antifungicida e cicatrizante. Tomei um banho, jantei no restaurante do hotel - peixe com legumes e salada - e fui às nove horas pra cama.


Na quarta-feira - hoje - os planos eram passear de buggy. O buggeiro - com o apropriado apelido de Mr. Bean, inspirado nas suas inconfundíveis feições - passou no hotel às nove horas.  Como o buggy comporta quatro passageiros, meus companheiros de empreitada eram três chineses - isso mesmo - chineses, que falavam poucas palavras em português. Pensei que ia dar uma exercitada no meu insipiente inglês, mas que nada. Eles não falavam uma palavra no idioma do Tio Sam. Mais tarde fiquei sabendo que os orientais tem uma lanchonete no centro do Rio de Janeiro. Um deles já mora há vinte anos no Brasil; o outro, há dez anos; o último, há cinco. Mesmo assim, a comunicação era muito difícil. Pra complicar ainda mais, o sotaque potiguar do Mr. Bean era quase mais difícil de entender do que os chineses... Mas vamos em frente... A primeira parada do Buggy foi no Aquário de Extremoz. Sim, Natal ficou para trás. O município vizinho é Extremoz. Lá fotografei muitos peixes, algumas tartarugas, cobras, iguanas, jacarés, lagostas... A viagem seguiu por muitos lugares bonitos e manobras extremamente radicais sobre as dunas. Paramos nas Dunas de Genipabu, onde dois dos chineses andaram de dromedário. Depois, fomos ao famoso esquibunda e ao aerobunda. Andei nos dois. Pensei que os chineses iam ficar o dia todo lá, mas nada. Apenas um andou no aerobunda. Os outros dois não se acharam em trajes adequados... Almoçamos num fabuloso restaurante na praia de Pitangui. E aí, um detalhe. Ô chineses que comem, sô! Todos encheram o prato com um edifício de quatro andares. O mais magrinho de todos, fez um de cinco andares. E são uns porcos pra comerem. Mastigam e falam aquela língua do aaaa, aaaa, ahhh o tempo todo. Apesar de ter pratinhos pra rejeitos, as sobras eram cuspidas na mesa mesmo. Uma porquice completa. Mas sobrevivi, apesar de ter me dado ânsia de vômito algumas vezes.


Na volta, paramos na Lagoa do Pitangui, um lugarzinho bacana, cheio de barzinhos dentro de uma pequena e rasa lagoa. Seguimos viagem por praticamente os mesmos caminhos da ida. Ah, ia me esquecendo: tem uma passagem bem interessante. Para atravessar o Rio Ceará-Mirim, é necessário colocar o buggy em uma pequena balsa que é levada a outra margem por um balseiro portador de uma taquara. Ele vai espetando a taquara no fundo do rio e fazendo a balsa deslizar por sobre as água. Impressionante a mudança do rio. De manhã, perto das onze horas, ele estava bem rasinho. De tarde, perto das três, ele já estava bastante invadido pela maré. Aliás, esse movimento da maré pode ser observado claramente em todo a praia. À medida que se aproxima o final da tarde, a maré vai ficando alta e, quando anoitece, ela recua drasticamente, mudando completamente o visual da areia. ((nota de correção: após algumas conversas com nativos e uma pesquisa ao google, fiquei sabendo que o movimento das marés não é sempre no mesmo horário, não. Aliás, eu já devia saber, porque, se não me engano ensinam isso na quarta ou na quinta série. Existe uma tábua das marés que indica o horário em que a maré está baixa. Normalmente, ela varia em 40 minutos a mais de um dia para outro, alterando, o visual a cada dia. Para saber mais: http://www.scubadiver.com.br/scubadiver/tabua.html)))


Chegamos cedo do passeio, perto das quatro da tarde. Dei uma caminhada de apenas duas horas. Voltei para o hotel, passei um bom tempo no computador e, como a comilança do meio-dia tinha sido muito grande, pedi no hotel mesmo um caldo de camarão. Fantástico, por sinal. Tenho mais dois dias em Natal, mas ainda não tenho programação. Vamos ver o que rola, se tiver alguma coisa interessante, volto a registrar. O importante é que até aqui o passeio já valeu a pena, e já dá para dizer que Natal é muito quisqueí. Quisqueí demais!

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