O Rogério era um gozador. Gozador daqueles de fazer graça de tudo. Até quando ele era mijado pelo chefe, ele fazia graça. Uma pessoa que levava a vida numa boa, sem estresse, fazendo de conta que o mundo é uma grande garrafa de cerveja pronta para ser bebida a qualquer instante. Hoje de manhã, lembrei do Rogério. Lembrei do Luciano, do Delgessir, do Xandinho, de tantos outros amigos que passaram pela minha vida. Pessoas que me fizeram rir, me fizeram sentir parte do mundo, mas que agora não sei por onde andam. Alguns, foram colhidos precocemente. Outros, simplesmente tomaram rumos diferentes do meu, e a distância e o tempo foram capazes de deixar apenas poucas lembranças encolhidas na memória.
Depois de alguns dias de muita preguiça matutina, daquelas capazes de desligar duas, três, quatro vezes o despertador de dois celulares, apenas para não colocar as pernas a correr e a caminhar, consegui vencer as forças contrárias e botei o corpo para fora da cama às seis da manhã. Café tomado, calção vestido, camiseta posta, tênis calçado, fone nos ouvido e cronômetro no pulso parti para minha corrida. Lá pelas tantas, ao som da Gloria Estefan cochichando ao meu ouvido "Levántense y gocen que la vida es corta", pensei em fazer alguma coisa para preencher algumas lacunas de tempo que existem em minha vida. Lacunas que se rasgaram não faz muito, num buraco difícil de ser preenchido. Sempre tive muita coisa para fazer, sempre correndo de um lado para outro, arrumações, filhos por cuidar, muitos problemas, algumas soluções. Agora que estou beirando a casa dos "enta", parece comédia: tenho muito tempo e não tanto ânimo como deveria ter para preenchê-lo. Bom, mas a Glória me relembrou que é preciso gozar, que a vida é curta, que necessário levantar-se. Então me veio a idéia de tentar escrever alguma coisa. Na escola, eu até era bonzinho em redação. Algumas vezes, passei o vexame de ler alto para todos os colegas aquilo que a professora considerava exemplo. Uma vez, lembro, uma professora publicou um texto meu na sala dos professores. Era uma antítese daquele poema que diz "as feias que me perdoem, mas beleza é fundamental". Numa parte dizia "o poeta que me perdoe, mas beleza não é tudo". Acho que, na realidade, eu não sabia escrever tão bem, eu sabia era escrever o que a professora queria ler. Bem, mas voltando às vacas frias, resolvi nessa minha primeira corrida com trinta e nove anos de idade, que eu iria escrever um blog. Afinal, agora, todo mundo tem que ter um blog. Eu já comecei alguns, mas sempre com propósitos diferentes deste. Desta vez, vou escrever coisas lá do fundo. Vou conter o meu superego e deixar o Id aparecer. Vou me expor. Para quem? Não sei. Talvez pra ninguém. Talvez pra mim mesmo. Talvez pro futuro. Isso não importa. O contador de visitantes ao lado quem sabe possa me ajudar a responder mais adiante. Então eu precisava um nome para o blog. Um nome impactante, diferente, único. Algo que fosse, ao mesmo tempo, inovador e nostálgico. Um nome que trouxesse as lembranças mais doces de um passado feliz.
Foi aí que lembrei do Rogério. E lembrei do jeito gozador daquele cara que fazia todo mundo rir. Lembrei da forma como ele cativava as pessoas com frases simples e de efeito. Palavras criadas ou repetidas entoadas pela boca do Rogério tinham um som diferente. Tinha a pureza de uma criança e a garganta de um trovador. Quando alguém perguntava: Rogério, que tu achas disto, o Rogério respondia: quisqueí! Se era uma coisa muito esplêndida, era muito quisqueí. Se era mais do que isso, era quisqueí demais! E o quisqueí do Rogério virou uma gíria do nosso grupo, da nossa tribo. Passados vinte anos sem que essa gíria fosse expandida para o mundo, eu a revivo agora, na capa deste blog, que eu, espero, seja para quem quer que leia, tão doce e prazeiroso quanto eram as rodas de conversa na mesa de bar onde estava o Rogério. Sejam quisqueí demais!!!!
segunda-feira, 19 de abril de 2010
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